COMO SEU CORPO PERMITE QUE A PRESSÃO ARTERIAL AUMENTE DURANTE O EXERCÍCIO FÍSICO?

 

Hoje é dia de falar de fisiologia do exercício!! Vamos compreender melhor umas das respostas do nosso corpo frente a esse desafio fantástico, que é o exercício físico!! Neste post diremos como o seu corpo permite que a pressão arterial (PA) aumente em conjunto com a frequência cardíaca (FC).

Primeiro vamos compreender como o corpo controla a PA em repouso. Esse controle se dá por uma série de mecanismos que agem em curto, médio e longo prazo. O barorreflexo arterial é o principal mecanismo que ajusta as oscilações de curto prazo da PA. Os barorreceptores (Figura 1) são os mecanorreceptores sensíveis ao estiramento (localizados predominantemente no arco aórtico e no seio carotídeo), são os responsáveis por este reflexo.

Figura 1. Os barorreceptores arteriais

Como os barorreceptores controlam a PA?

Durante o repouso, se a PA desvia da faixa adequada para a manutenção do fluxo sanguíneo tecidual, os barorreceptores são estimulados para que esta seja reajustada aos valores basais. Se a PA aumenta, os barorreceptores são estimulados e disparam uma resposta aferente ao centro de controle cardiovascular (o núcleo do trato solitário que se situa no bulbo), o qual induz aumento da atividade cardíaca vagal, resultando em diminuição da FC por meio de reposta eferente do nervo vago (Figura 2).

Figura 2. O controle reflexo da PA em repouso.

Caso haja diminuição da PA, o grau de estiramento dos barorreceptores diminui, resultando em aumento da atividade simpática eferente e desencadeia uma elevação na FC no nodo sinoatrial, uma diminuição no tempo de condução do impulso no nodo atrioventricular, um aumento da contratilidade cardíaca, aumentando assim o débito cardíaco; além disso, a atividade simpática atua sob as arteríolas e veias gerando aumento da resistência periférica total e do retorno venoso.

Ou seja, em repouso, se a PA aumenta a FC diminui para normalizar o sistema, e vice versa. Em condições normais de repouso, nosso corpo não mantêm PA e FC aumentando em conjunto.

E durante o exercício físico, o controle barorreflexo acontece?

Contudo, todavia, entretanto para que ocorra o aumento do fluxo sanguíneo nos músculos em contração, durante o exercício a PA e a FC aumentam simultaneamente, ao contrário da condição de repouso. Afinal durante a realização do movimento seus músculos precisam de mais sangue para dar conta desta atividade.

Inicialmente pensou-se que o exercício físico inibia o controle barorreflexo da PA, em virtude desse aumento simultâneo. Durante o esforço, o ponto de ajuste do reflexo (determinado centralmente) é ajustado para manter a PA em valor mais elevado em comparação ao repouso, exigindo aumento FC (Mcilveen et al., 2001). Essa ação diferente dos barorreceptores arteriais, ou seja uma alteração no ponto de ajuste dos barorreceptores, foi denominada por Heesch e Carey (Heesch e Carey, 1987) de resetting do barorreflexo (Figura 3).

Figura 3. O resetting do baroreflexo durante o exercício físico permite o aumento conjunto de PA e FC. Adaptado de Potts (2006).

O reajuste do barorreflexo ocorre pela interação da modulação de três vias neurais:

1) A ativação do comando central no início e durante o exercício altera a função neuronal dentro do NTS e no bulbo ventrolateral rostral (BVR) (Williamson, 2010);

2) A estimulação dos metaborreceptores musculares limita o grau de excitação dos neurônios barossensíveis no NTS, por meio de um mecanismo GABAérgico inibitório (Potts, 2006).;

3) A ativação dos receptores musculares excita diretamente os neurônios pré-motores simpáticos no BVR (Potts, 2006).

Ademais Pires et al. (2013) demonstraram a ocorrência do controle barorreflexo durante o exercício, ao utilizar uma técnica de desnervação sinoaórtica. Logo, alterações na função barorreflexa durante o exercício físico, a hemodinâmica central e as respostas ventilatórias estão sob controle do sistema nervoso autônomo (SNA) (Figura 4). Assim, o equilíbrio autonômico é mantido não só pela ação barorreflexa arterial, mas também por quimiorreflexo central e periférico, ergorreflexos e reflexo de estiramento pulmonar, reajustando a circulação e ventilação para manter a perfusão tecidual (Crisafulli et al., 2003).

Figura 4. A influência dos mecanorreceptores e metaborreceptores na resposta cardiovascular durante o exercício físico.

E assim nosso corpo permite que tenhamos uma adequada quantidade de sangue com nutrientes em qualquer situação de esforço físico, como na corrida, na musculação e no treinamento funcional.

REFERÊNCIAS

CRISAFULLI, A. et al. Hemodynamics during active and passive recovery from a single bout of supramaximal exercise. European Journal of Applied Physiology, v. 89, n. 2, p. 209-216, Abr 2003.

HEESCH, C. M.; CAREY, L. A. Acute resetting of arterial baroreflexes in hypertensive rats. American Journal Physiology, v. 253, n. 4 Pt 2, p. 974-9, Out 1987.

MCILVEEN, S. A.; HAYES, S. G.; KAUFMAN, M. P. Both central command and exercise pressor reflex reset carotid sinus baroreflex. American Journal of Physiology – Heart and Circulatory Physiology, v. 280, n. 4, p. H1454-H1463, Abr, 2001.

PIRES, W. et al. Physical Exercise Performance in Temperate and Warm Environments Is Decreased by an Impaired Arterial Baroreflex. PLoS One, v. 8, n. 8, p. e72005, 2013.

POTTS, J. T. Inhibitory neurotransmission in the nucleus tractus solitarii: implications for baroreflex resetting during exercise. Experimental Physiology, v. 91, n. 1, p. 59-72, Jan 2006.

WILLIAMSON, J. W. The relevance of central command for the neural cardiovascular control of exercise. Experimental Physiology, v. 95, n. 11, p. 1043-8, Nov 2010.

Por Anselmo Gomes de Moura

 

 

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