JEJUM INTERMITENTE: Mito ou Realidade

O aumento da prevalência da obesidade nos últimos 30 anos é assustador. Dia após dia pessoas do mundo inteiro buscam novas estratégias para perder peso. Infelizmente, os números mostram que as estratégias para perda de peso disponibilizadas até o momento estão fracassando, pelo menos em nível populacional. Embora não seja uma novidade, o uso do jejum intermitente para perda de peso se tornou muito popular nos últimos anos. Será que o jejum intermitente é uma estratégia eficiente para perda de peso? Será que o jejum intermitente é melhor comparado às outras estratégias? Antes de responder essas perguntas vamos ponderar alguns fatos.

A estratégia mais tradicional para perda de peso é a restrição energética contínua (REC) que é caracterizada pela redução da ingestão energética em 15 a 60% do gasto energético total (1). O jejum intermitente surge como uma alternativa a REC. Como alternativa é importante que o jejum intermitente seja, no mínimo, tão eficaz quanto a REC.

De modo geral já fazemos jejum intermitente. Por exemplo, uma pessoa que faz sua última refeição do dia às 21:00h e faz a primeira refeição do dia às 7:00h estará realizando jejum intermitente 14:10, ou seja, 10h sem alimento e uma janela de 14 para realizar as refeições. Isso significa que fazer jejum intermitente já é algo natural para o ser humano. No entanto, vários protocolos de jejum intermitente têm sido divulgados e alguns foram testados cientificamente. Entre os mais utilizados estão:

  • ADF (alternate day fasting) : dia on (dieta normal) seguido de dia off (Sem alimento ou com restrição energética entre 25 a 75%);
  • 5:2 diet – 5 dias com dieta “normal” seguido de 2 dias com restrição energética (25 a 75% – cerca de 500 kcal para mulheres e 600 kcal para homens ) ou jejum total (permitido líquidos não calóricos);
  • 16:8 diet – 16 horas de jejum seguido de 8 horas com alimentação;
  • 20:4 diet – 20 horas de jejum seguido de 4 horas com alimentação

Entre os efeitos do jejum intermitente observados em estudos estão:

a) melhora de marcadores bioquímicos (ex. < insulinemia, redução de LDL colesterol);

b) redução de risco de DCV e Diabetes tipo II;

c) Redução da inflamação;

d) Redução do peso corporal e gordura visceral (1,2,3,4).

Entre as décadas de 50 a 70 alguns casos de obesidade mórbida foram tratados com jejum prolongado. No estudo de Stuart and Flemming (5) um sujeito obeso realizou 282 dias de jejum. Seu peso corporal reduziu de 207 kg para 81 kg neste período. O sujeito foi acompanhado por equipe médica o tempo todo e ingeriu bebidas não calóricas e suplementos de vitaminas e minerais. Esse foi um caso de sucesso, mas esse método não tem sido recomendado devido aos riscos à saúde e risco de morte (pessoas perderam a vida fazendo essa intervenção).

A maioria dos estudos sobre jejum intermitente tem sido realizada com sujeitos com sobrepeso e obesidade, principalmente mulheres. Têm sido aplicados protocolos diferentes e o controle da ingestão alimentar nem sempre é realizada de maneira adequada. Poucos estudos têm envolvido a prática de exercícios físicos e a maioria utiliza amostras pequenas e realizam a intervenção por períodos curtos. Tudo isso dificulta a determinação científica da eficácia do jejum intermitente frente a outras estratégias para perda de peso. Seimon et al (2015), realizaram revisão sistemática sobre jejum intermitente incluindo 40 estudos. Os autores concluíram que o jejum intermitente é uma estratégia válida, mas aparentemente não é superior a restrição energética contínua.

Embora alguns estudos mostrassem maior aderência ao jejum intermitente, não está claro se essa estratégia, de fato, tem maior adesão que a restrição energética contínua. Há estudos mostrando o contrário (3). Mesmo em relação à redução do peso corporal e melhora da composição corporal (redução de gordura e manutenção de massa magra) os estudos mostram resultados contraditórios. Trabelsi et al (6) realizaram um estudo com bodybuilders (fisiculturistas) tunisianos durante o mês do Ramadan (realizavam jejum do nascer do sol até o pôr do sol totalizando cerca de 15 horas de jejum). Neste estudo, os atletas foram avaliados 2 dias antes de iniciar o Ramadan e no 29° dia do Ramadan. Um grupo realizava os treinos (exercício resistido) no fim do período de jejum e o outro grupo, após a primeira refeição do dia (após encerrar o período de jejum). O grupo que fazia o treino em jejum reduziu o peso, o percentual de gordura e a massa livre de gordura em 0,7 kg, 0,7% e 0,2 kg, respectivamente. O outro grupo reduziu o peso e o percentual de gordura em 0,1 kg e 0,4%, respectivamente. Este grupo apresentou aumento de 0,3 kg na massa livre de gordura. As alterações observadas em ambos os grupos foram mínimas. É importante dizer que nenhum dos grupos reduziu a ingestão energética diária durante o Ramadan. Eles apenas alteraram os horários de ingestão (6). Assim podemos perceber que não basta fazer jejum intermitente, mas é preciso também alterar a ingestão alimentar para se ter resultados expressivos.

Voltando às questões apresentadas no início do texto podemos concluir que:

  • Será que o jejum intermitente é uma estratégia eficiente para perda de peso? Sim, mas não para todas as pessoas.
  • Será que o jejum intermitente é melhor comparado às outras estratégias? Aparentemente não, mas certamente algumas pessoas terão resultados melhores com o jejum intermitente do que com outras estratégias.

Referências:

Por Wilson César de Abreu

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