O EXERCÍCIO FÍSICO É A REAL POLIPÍLULA

O cotidiano nos leva cada vez mais para diminuição do nosso gasto energético. Facilidades como o controle remoto, carros automáticos com vidros e travas elétricas nos levam à diminuição de movimentos em nossa rotina diária. Esse fato tem sido correlacionado com o desenvolvimento de diversas doenças cardiovasculares (DCVs) crônicas como a hipertensão, a diabetes e a síndrome metabólica.

A indústria farmacêutica desenvolveu diversos medicamentos para as DCVs tais como estatinas, diuréticos, bloqueadores, inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA) e aspirina. Contudo, muitos desses medicamentos isoladamente não têm apresentado resultados satisfatórios e associação deles geram, muitas vezes, efeitos colaterais. O desenvolvimento de combinações de diferentes fármacos originalmente feitos para o tratamento de doenças cardiovasculares como infarto do miocárdio em uma só pílula poderia ajudar a superar essas limitações e está ganhando atenção como uma estratégia preventiva promissora no século XXI (Nguyen e Cheng-Lai, 2013; Sanz e Fuster, 2012).

JÁ IMAGINOU UMA SÓ PÍLULA QUE PREVENISSE DIVERSOS MALES? Essa combinação foi denominada polipílula. Esse é o objetivo do desenvolvimento desse medicamento. Os primeiros pesquisadores ao utilizarem esta denominação para a prevenção de doenças cardiovasculares foram Wald e Law (2000). Em 2001, a Organização Mundial da Saúde concluiu que uma dose fixa desta polipílula contendo aspirina, estatina e dois agentes hipotensores podem melhorar a adesão ao tratamento, bem como reduzir o custo dos medicamentos, particularmente para países de renda média. E, em 2003, Wald e Law alegaram que as DCVs poderiam ser reduzidas em 88% e os acidentes vasculares encefálicos (AVE) em 80%, em todas as idades.

Um estudo publicado em 2011 avaliou a pressão arterial sistólica (PAS), o LDL-colesterol, e a presença de efeitos colaterais e aderência ao tratamento com polipílula por 12 semanas, em 378 pessoas. Foi encontrada uma redução de 9,9 mmHg na (PAS) e de 0,8 mmol/L no LDL-colesterol. Entretanto, houve maior incidência de efeitos adversos no grupo polipílula em comparação ao grupo placebo (58% vs 42%). Quanto à aderência, 23% dos pacientes do grupo polipílula tiveram má aderência, em comparação com 18% do grupo placebo. Os autores estimaram que, se o tratamento fosse continuado por longo prazo, haveria uma redução aproximada de 60% no risco de DVCs e AVE. No entanto, isso implicaria em algum efeito colateral, como o aumento da incidência de sangramentos, principalmente de origem gastrointestinal, em decorrência do uso de AAs.

Como um contraponto o exercício físico vem sendo utilizado como uma estratégia na prevenção e tratamento das doenças cardiovasculares.


Nas figuras 1 e 2, temos a comparação realizada por Fiuza-Luces et al. (2013) com dados obtidos em três meta-análises (Elley et al., 2012; Pattyn et al. 2013; Cornelissen e Smart, 2013). A primeira de Elley et al., 2012 trata da eficácia e tolerabilidade de polypill, em 2.218 indivíduos de ambos os sexos (50-60 anos) com pelo menos 1 fator de risco para doenças cardiovasculares. Os estudos de Pattyn et al. (2013) e de Cornelissen e Smart  (2013)  tratam da realização de exercícios físicos. O primeiro em 272 homens de meia-idade com síndrome metabólica e o segundo em 5.223 homens e mulheres de meia-idade sem DCVs.

Figura 1. Alteração da pressão arterial sistólica e diastólica devido ao uso da polipílula e a realização de diferentes tipos de exercício físico. Adaptado de Fiuza-Luces et al. (2013).

O exercício de endurance apresenta melhores benefícios sobre o colesterol total, o LDL-colesterol e a pressão arterial comparado ao uso da polipílula (Figuras 1 e 2). O exercício isométrico tem um efeito de redução da pressão arterial semelhante à polipílula (Figura 1).

Figura 2. Alteração do colesterol total, o LDL-colesterol devido ao uso da polipílula e a realização exercício físico de endurance. Adaptado de Fiuza-Luces et al. (2013).

Cabe denotar que outros benefícios para a saúde gerados pela prática de exercícios são improváveis de serem alcançados por uso de polipílulas como o emagrecimento e o aumento da capacidade cardiorrespiratória. Além disso, as taxas de tolerância e adesão ao tratamento são maiores com o exercício. A taxa de abandono de programas de exercícios é de 10%, enquanto que aqueles que tomam polipílula são de cerca de 20%. Os efeitos benéficos do exercício regular, podem ir muito além de reduzir os fatores de risco de DCV, bem como leva à poucos efeitos colaterais e muitas vezes é mais barato do que diversos medicamentos. Ao contrário do exercício, nenhuma intervenção de droga provou ser eficiente para manter a aptidão muscular, um fator chave para independente em todos os estágios da vida. Portanto de verdade é o exercício.

Referências

  • Cornelissen VA, Smart NA. Exercise training for blood pressure: a systematic review and metaanalysis. J Am Heart Assoc. v. 2, 2013.
  • Elley CR, Gupta AK, Webster R, Selak V, Jun M, Patel A, Rodgers A, Thom S. The efficacy and tolerability of ‘polypills’: meta-analysis of randomised controlled trials. PLos One. v. 7. 2012.
  • Fiuza-Luces C, Garatachea NBerger NALucia A. Exercise is the real polypill. Physiology (Bethesda).  v. 28, n. 5, p. 330-58. 2013.
  • PILL Collaborative Group. An International Randomised Placebo-Controlled Trial of a Four-Component Combination Pill (‘‘Polypill’’) in People with Raised Cardiovascular Risk. PLoS ONE. v. 6, n. 5. 2011.
  • Nguyen C, Cheng-Lai A. The polypill: a potential global solution to cardiovascular disease. Cardiol Rev. v. 21, p. 49–54. 2013.
  • Pattyn N, Cornelissen VA, Eshghi SR, Vanhees L. The effect of exercise on the cardiovascular risk factors constituting the metabolic syndrome: a meta-analysis of controlled trials. Sports Med. v. 43, p. 121–133. 2013.
  • Sanz G, Fuster V. Maximizing therapeutic envelope for prevention of cardiovascular disease: role of polypill. Mt Sinai J Med. v 79, p. 683–688. 2012.
  • Wald NJ, Law MR. Formulation for the Prevention of Cardiovascular Disease. United Kingdom, Patents GB008791 and GB0100548, 2000.
  • Wald NJ, Law MR. A strategy to reduce cardiovascular disease by more than 80%. BMJ. v. 326, p.1419. 2003.

Por Anselmo Gomes de Moura

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*