PRATICANTES DE MUSCULAÇÃO PODEM CHEGAR AO OVERTRAINING?

O overtraining é caracterizado como um desequilíbrio entre estresse e recuperação que acarreta a queda no rendimento do atleta, o qual pode se prolongar por meses ou anos (Kreider et al., 1998).

Diversos fatores podem contribuir para esse estado, como por exemplo, negligenciar a recuperação como parte fundamental e integrante do processo de treinamento (Smith, 2003); priorizar somente ao estresse de treino propriamente dito levando à respostas negativas como queda no desempenho do atleta (Kelman, 2001), ou ainda a incorreta condução do treinamento em termos de volume ou intensidade ou pausa de recuperação (Heldelin et al., 2000).

Ainda não foi identificado um marcador confiável, simples e específico para monitorar regularmente a resposta do atleta à carga de treinamento, bem como diagnosticar o overtraining nos estágios iniciais, devido avariabilidade alta nos sintomas.

Os principais parâmetros de avaliação para o diagnóstico são os fisiológicos, bioquímicos, imunológicos e psicológicos, além do próprio desempenho. O fato é que há necessidade de uma avaliação multivariada para mensurar a síndrome.

Como possíveis sintomas pode-se apresentar:
 Queda no desempenho;
 Dificuldade em manter os regimes de treinamento;
 Percepção de pernas pesadas;
 Fadiga generalizada;
 Aumento da percepção subjetiva do esforço;
 Alterações da frequência cardíaca de repouso e submáxima;
 Diminuição dos estoques de glicogênio;
 Disfunções no sistema nervoso autônomo;
 Infecções do trato respiratório superior;
 Imunossupressão;
 Distúrbios do sono e do apetite,
 Alterações de humor;
 Depressão, entre outros.

Ufa…. é muito sintoma….

Muito se fala sobre a síndrome do overtraining no treinamento em praticantes de musculação. E aqui leia-se não-atleta, ou seja, não estou falando de fisiculturistas (atletas da modalidade). Estou me referindo àquele sujeito que vai à academia buscar seu objetivo como hipertrofia, emagrecimento ou saúde. Vez ou outra, ouço falar que pessoas que sentiram muito cansaço e desânimo para treinar e logo soltam a fatídica frase: “Parei, porque entrei em overtraining”.

Bom, isso provavelmente não é verdade. Até mesmo em atletas a existência da síndrome é questionada, como no artigo de DOES OVERTRANING EXIST de Halson e Jeukendrup (2014).

A verdade é que isso DIFICILMENTE ISSO ACONTECE em não-atletas. Dizer que um sujeito que treina 5 vezes por semana por uma hora, uma hora e meia, e sente fadigado, MUITO DIFICILMENTE, para não dizer IMPOSSÍVEL, atinje o overtraining.

Do ponto de vista da ciência, estudos com o overtraining são escassos, não porque é desinteressante estudar, mas porque conduzir um estudo que leve um sujeito ao overtraining, beira a anti-ética.

Ackel-D’Elia e colaboradores (2010) avaliaram sinais e sintomas de overtraining de 413 indivíduos ativos que frequentavam academias. Os autores não encontraram alterações nos quesitos do questionário POMS (usado para medir as variações emocionais associadas ao exercício e bem-estar psicológico), nos parâmetros hematológicos, atividade da creatina quinase, cortisol, testosterona total e testosterona livre. Isso quer dizer que nenhum dos fatores predisponentes ou sinais e sintomas normalmente atribuídos ao overtraning foi encontrado nesses sujeitos.

Vejo uma confusão de sentimentos e conceitos quando ouço de falar de overtraining. Então é preciso um pouco mais cuidado ao usar esse termo.

Cansaço, fadiga, por si só NÃO É OVERTRAINING.

 

Referências:

Ackel‐D’Elia C, Vancini RL, Castelo A, Nouailhetas VLA, da Silva AC. Absence of the predisposing factors and signs and symptoms usually associated with overreaching and overtraining in physical fitness centers. Clinics. 2010; 65(11).

Halson SL, Jeukendrup AE. Does overtraining exist? An analysis of overreaching and overtraining research. Sports Med 2004; 34:967-981

HELDELIN, R.; KENTTÁ, G.; WIKLUND, U.; BJERLE, P.; HENRIKSSON-LARSÉN, K. Short-term overtraining: effects on performance, circulatory responses, and heart rate variability. Med Sci Sports Exerc, v. 32, n. 8, p. 1480-1484, 2000

Kellmann, M., Altenburg, D., Lormes, W., & Steinacker, J. M. (2001). Assessing stress and recovery during preparation for the world championships in rowing. Sport Psychologist, 15(2), 151-167.

Kreider RB, Fry AC, O’Toole ML. Preface. In: Overtraining in sport. Champaign (IL): Human Kinetics, 1998;vii-ix.

Smith LL. Overtraining, excessive exercise, and altered immunity: is this a T helper-1 versus T helper-2 lymphocyte response? Sports Med. 2003;33(5):347-364

 

Por Anselmo Gomes de Moura

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*