RELAÇÃO ENTRE TREINAMENTO RESISTIDO E A QUALIDADE DE VIDA DO IDOSO

O envelhecimento é caracterizado, do ponto vista do sistema nervoso, pela perda gradual de motoneurônios (MNs) da região da coluna vertebral e de unidades motoras (Figura 1). Essa perda é causada por apoptose, diminuição da sinalização de IGF-1 (hormônio produzido no fígado que atua em conjunto com o hormônio de crescimento), além de aumentos de citocinas circulantes (como TNF α, TNF β e IL-6) e estresse oxidativo celular (Aagard et al., 2010). Como consequência, temos um grande problema do envelhecimento, temos a sarcopenia (diminuição do número e tamanho das fibras musculares) que por sua vez leva à redução da capacidade funcional e aumento da dependência e da ocorrência de quedas.

grafico 22

Figura 1. Número total de fibras de axônios com o passar dos anos e imagens de microeletromiografia nervosa de indivíduos jovens e idosos. Nota-se a queda o total de axônios e alteração causada pelo envelhecimento. Adaptado de Mittal e Longmani (1987), citado por Aagard et al., 2010.

Maiores perdas de MNs ocorrem na região lombar comparada a cervical. Os neurônios da região lombar comandam os movimentos dos membros inferiores, enquanto os neurônios da região cervical comandam os movimentos dos membros superiores. Ou seja, as pernas são mais prejudicadas com o passar do tempo. Lexell e colaboradores (1988) demonstraram maiores perdas de força no músculo quadríceps femoral comparado ao bíceps braquial em humanos. Essa perda repercute na capacidade de caminhada e movimento como subir escadas e sentar e levantar.

O treinamento resistido (onde se inclui a musculação) é conhecido tratamento não-farmacológico de diversas patologias e condições desfavoráveis do organismo. Contudo, não previne a redução no número de MNs causado pelo envelhecimento (Aagard et al., 2010). Mas antes de demonstrar como os outros benefícios que o treinamento de força podem auxiliar as pessoas da melhor idade, é primordial explicar que a perda de MNs é um processo senescente. Ou seja, um envelhecimento é um processo normal pelo qual todos os organismos passam, sem que esse processo seja considerado uma doença que deve ser tratada, combatida a todo custo. Como exemplo da importância da velhice, o filme “O Segredo de Adaline” (link abaixo) conta a estória de uma mulher que, milagrosamente, não consegue mais envelhecer, se tornando um ser imortal com a aparência de 29 anos. Ela vive uma existência solitária, nunca se permitindo criar laços com ninguém, para não ter seu segredo revelado. Não é esse tipo de vida que gostaríamos de ter. Logo a intenção não é combater o envelhecimento e sim aproveitar essa fase da vida.

2209_272 2209 3115 640x940

                                                           https://www.youtube.com/watch?v=TfsITmnAaTA

Isso nos remete ao treinamento resistido. Pois sabe-se que ele pode provocar respostas adaptativas no SNC que compensem a perda de MNs. Separamos 4 pontos que representam muito bem  essas respostas.

O primeiro ponto positivo a favor do treinamento resistido é que ele pode aumentar a taxa de desenvolvimento de força, mesmo em pessoas que chegaram aos 80 anos (Pearson et al., 2002). Essa taxa representa a capacidade de um músculo em exercer potência ou fazer movimentos mais fortes em espaço de tempo menor. Um dos fatores que definem a TDF é a frequência de disparos máxima de MNs. Kamen e Knight (2004) demonstraram que não houve diferença nessa frequência entre sujeitos de 67 a 81 anos comparados à sujeitos de 18 a 29 anos ao analisar a contração isométrica máxima do quadríceps femoral após um período de 12 semanas de treinamento resistido. Logo o treinamento poderia igualar a TDF entre indivíduos de meia idade e jovens.

O segundo ponto é que o treinamento resistido pode restaurar a co-ativação antagonista a níveis normais (Hakkinen et al., 1998, 2001). Ao contrário do que muitos pensam a musculatura antagonista não deve simplesmente relaxar durante a contração da musculatura agonista. O que realmente deve ocorrer é uma ativação de 20-25% em relação à ativação agonista máxima. Isso repercute na melhora no controle motor fino, e em atividades como pinçar e manusear garfo e faca.

O terceiro ponto é a aumento da área de secção transversa do músculo, inclusive em idosos com mais de 80 anos, e diminuição da reversão do tipo de fibras musculares ocasionado pelo envelhecimento (Aagard et al., 2010). Ou seja, conseguimos manter e/ou aumentar a capacidade dos músculos de produzir força.

O quarto ponto é aumento do ângulo de penação (Suetta et al., 2009), que significa ângulo de orientação entre fibras musculares e tendão. Quanto maior esse ângulo maior será o número de fibras musculares comportadas em uma área muscular e consequentemente uma maior área de secção transversa e aumento da força máxima.

Um fato interessante é que os maiores ganhos foram com treinamentos com sobrecargas vigorosas, ou seja, acima de 80% de 1 RM (Caserotti et al., 2008; De Vos et al., 2005). Todos esses pontos podem causar a melhora da capacidade funcional dos idosos, como por exemplo, na força de sentar e levantar, na velocidade em subir escadas e de caminhada.

Como conclusão podemos dizer que o treinamento resistido não impede o envelhecimento normal ao qual todas as pessoas devem passar. Mas consegue melhorar a qualidade de vida das pessoas que estão nessa fase da vida, ao proporcionar diversos benefícios que aumentam a capacidade funcional, tornando-as mais independentes e com mais autonomia.

REFERÊNCIAS:

  • Aagaard P, Suetta C, Caserotti P, Magnusson SP, Kjær M. Role of the nervous system in sarcopenia and muscle atrophy with aging: strength training as a countermeasure. Scand J Med Sci Sports 2010: 20: 49–64.
  • Caserotti P, Aagaard P, Larsen JB, Puggaard P. Explosive heavy-resistance training in old and very old adults: changes in rapid muscle force, strength and power. Scand J Med Sci Sports 2008: 18: 773–782.
  • de Vos NJ, Singh NA, Ross DA, Stavrinos TM, Orr R, Fiatarone Singh MA. Optimal load for increasing muscle power during explosive resistance training in older adults. J Gerontol Med Sci 2005: 60A: 638–647.
  • Hakkinen K, Kraemer WJ, Newton RU, Alen M. Changes in electromyographic activity, muscle fibre and force production characteristics during heavy resistance/power strength training in middle-aged and older men and women. Acta Physiol Scand 2001: 171: 51–62.
  • Hakkinen K, Kallinen M, Izquierdo M, Jokelainen K, Lassila H, Malkia E, Kraemer WJ, Newton RU, Alén M. Changes in agonist-antagonist EMG, muscle CSA, and force during strength training in middle-aged and older people. J Appl Physiol 1998a: 84: 1341–1349.
  • Mittal KR, Logmani FH. Age-related reduction in 8th cervical ventral nerve root myelinated fiber diameters and numbers in man. J Gerontol 1987: 42: 810.
  • Suetta C, Hvid LG, Justesen L, Christensen U, Neergaard K, Simonsen L, Ortenblad N, Magnusson SP, Kjaer M, Aagaard P. Effects of aging on human skeletal muscle after immobilization and retraining. J Appl Physiol 2009: 107: 11721180.

Por Anselmo Gome de Moura – CREF 011134G-M

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*